Colóquio na Fundação Oriente

Joaquim Pais de Brito, Director do MNE, e Joana Amaral, responsável pela Área de Conservação e Restauro, apresentaram as suas comunicações no encontro A arte efémera e a conservação, O paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos que decorreu a 6 e 7 de Novembro no auditório do Museu do Oriente. Este encontro foi organizado pela Fundação Oriente, Instituto dos Museus e da Conservação, Museu Colecção Berardo e Universidade Nova de Lisboa, em estreita colaboração com o Museu Nacional de Etnologia. O Director foi ainda moderador do painel de um dos paineis do colóquio.
Publicamos os abstracts das duas comunicações.

O efémero e a procura de perenidade
Joaquim Pais de Brito

O efémero ajuda-nos a pensar como as sociedades e os indivíduos, no seu devir, inventam processos e formas de lutar contra a usura do tempo. O quotidiano do desgaste e da perda, percebido na materialidade das coisas e nos modos de fazer, as idades da vida com as mudanças e as fracturas que trazem, o paroxismo da presença da morte, são outras tantas dimensões onde identificamos e queremos problematizar as expressões do efémero. Elas podem ser de sinais opostos, entre o significado profundo das obras, raras, de maior investimento em trabalho, riqueza e excelência formal, aos objectos mais vulgares do dia-a-dia, que acumulam os sinais da sua utilização, os restos ou vestígios das matérias que tocam, os estragos, arranjos e deformações que modulam indefinidamente a sua forma. Estes últimos são testemunhos da passagem do tempo, acompanham-no e, na sua materialidade e historicidade, são uma das figurações do próprio tempo. Já os primeiros surgem e desaparecem, sobretudo, em situações e contextos de grande ritualização.

O ritual produz um efeito de repetição cíclica, marcando estações ou momentos do ano e dias festivos que dão a ver artefactos que só então são construídos ou exibidos e que, na maioria dos casos, são também destruídos. É este o pleno domínio do efémero, aquele onde se manifestam frequentemente as maiores capacidades de elaboração plástica e de projecção conceptual e simbólica do grupo e de criação individual de alguns dos seus membros, em obras que, no entanto, se torna muito difícil, senão impossível, guardar ou preservar. Elas celebram, numa exibição de beleza, excesso e artifício, a comunidade nos modos de se ver a si mesma e de se dar a ver aos outros. As armações das festas, os tapetes de flores, a pirotecnia, a recriação do espaço pela vegetação ou outros materiais perecíveis, as iluminações, os manjares cerimoniais, são exemplos de objectos que se podem incluir no amplo domínio das colecções etnográficas mas que os museus dificilmente podem guardar enquanto tais, e que só outras formas de registo e documentação permitem reter como memória e conhecimento.

Uma outra dimensão deste mesmo processo exprime-se nos rituais de passagem que marcam a vida dos indivíduos e que, pela sua repetição, lidam com o tempo numa ambígua relação de celebração e de recusa. A circulação dos bens, a palavra e o gesto codificados, as performances, as máscaras e outros artefactos operadores do ritual, vão recorrentemente emergindo em gerações sucessivas, sinalizando os momentos decisivos que pontuam a vida do nascimento à morte, participando de uma temporalidade que permite lidar com a usura do tempo e o sofrimento da perda. Também aqui o efémero pode atingir o registo da excelência manifestando-se, tal como nos outros casos, na utilização de objectos cujo pleno sentido se encontra no acto da sua destruição.

Como entram estes objectos no Museu? Que problemas levanta a sua recolha e conservação? No Museu, a garantia de perenidade para o efémero está bem longe dos contextos de origem onde é o efémero da obra, traduzido mesmo na sua destruição, que reafirma a perenidade do grupo. É sobre isto que queremos falar. E falar também dos objectos banais do quotidiano que, no seu percurso de vida, acumulam indícios de uso que o Museu quer conservar, mesmo que eles não sejam mais do que uma aparente sujidade.

Formigas, pão-de-ló e pedras: fronteiras de intervenção
Joana Amaral

Os casos que apresentamos demonstram como os problemas que os objectos nos colocam, ou que nós colocamos aos objectos, desafiam a fronteira dos critérios que definimos para a nossa actuação mas ao mesmo tempo enriquecem a reflexão e tornam a conservação uma área transversal ao conjunto das actividades do Museu.

O primeiro caso refere-se a um peitoral, proveniente da Amazónia, inventariado como “adorno/escudo”. Sobre este objecto em concreto a informação que temos é muito escassa. No momento da sua incorporação no MNE, em 2003, houve uma inversão nos procedimentos que normalmente são efectuados, o que levou a uma intervenção errada: foram retiradas formigas de onde não deveriam ter saído. Em 2004, durante a preparação das Galerias da Amazónia, o objecto foi reavaliado e demo-nos conta do problema. Em 2008 iniciaram-se as tentativas de tratamento com vista a repor uma situação que tinha sido alterada.

A forma de pão-de-ló de 3/4, constituída por dois alguidares, um vaso e por três folhas de papel que forram a forma, foi trazida para o MNE a 21 de Maio de 2008, contendo o último pão-de-ló formado e cozido neste conjunto. No momento da chegada da forma ao MNE foram transmitidas as indicações para a sua incorporação que implicavam a conservação das três folhas de papel e, no mesmo dia, o pão-de-ló foi consumido pela equipa do MNE. São aqui apresentadas as opções de conservação de uma situação pouco vulgar.

O pote de roça foi um dos objectos recolhidos numa visita a Nisa, em Setembro de 2007, no âmbito do estudo de um centro oleiro. Este tipo de pote tem a particularidade das pedrinhas estarem incorporadas na pasta, em vez de incrustadas na superfície. Actualmente já não se fabrica e o oleiro António Pequito já não fazia um destes exemplares há mais de 20 anos. Como prática corrente, quando o pote envelhecia e a sua superfície se desgastava e embaciava, roçava-se com uma pedra para que esta se renovasse. Neste último caso foi feita a opção de manter metade da superfície do pote de roça tal como chegou ao Museu e a outra metade roçada, sendo um exemplo de como as intenções pedagógicas se relacionam com as de conservação.

Formigas, pão de ló e pedras

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s