Panos d’Obra

A propósito da actuação desta noite, às 21h, do grupo de batuque Finka-Pé, transcrevemos aqui um parágrafo de António Carreira dedicado aos panos d’obra usados pelas mulheres cabo-verdeanas.
“São assim considerados todos os formados por bandas cuja tecelagem implique a feitura, ao tear, de complexos lavores (definidos indistintamente por ornato ou relevo, técnica de brocado ou de float – à falta de outro termo técnico mais adequado ou expressivo), usando só linha de algodão e de seda de diversas cores, formando desenhos geométricos ou figuras, objectos, casas, igrejas, embarcações, insectos, símbolos como a cruz de Cristo, estrelas de várias pontas, rosáceas e outros. (…)
A designação pano d’obra tem o seu fundamento. Segundo Feijó, «conforme o seu obrado ou trabalho, assim determinavam a espécie», pois a diversidade de lavores «concorre também a fazer o seu valor intrínseco no comércio».
A dificuldade da obra, o trabalho exigido pelos lavores, valorizam o tecido, tornando-o caro. O tecelão, o ficial (de oficial, de ofício) tanto em Cabo Verde como na Guiné, ao empreender a feitura do desenho encomendado, começa por elucidar o cliente de que o pano «tem obra». É, pois, difícil, complicada a sua tecelagem. Obrado é sinónimo de muito esmerado, complicado. O termo foi bastante utilizado nos antigos «Regimentos» da Metrópole, nos século XVI e seguintes, ao regularem as actividades têxteis. Registavam as «Fraudes e deficiências de produção», quando os panos se apresentavam mal obrados e falsificados, assim na conta dos fios como na impropriedade das tintas. A denominação pano d’obra foi, evidentemente, buscada no português. Na Metrópole o termo obrado é hoje arcaico.
Nesta categoria conhecem-se em Cabo Verde as seguintes denominações, usadas também na Guiné: «Bixo simples» (…); Bicho cortado (…); Boca branca (…); Oxós ou apenas oxó, também designado por pano de vestir (…).

CARREIRA, António – Panaria caboverdeana-guineense: (aspectos históricos e sócio-económicos); pref. de Jorge Dias. – 2ªed. – [Praia]: Instituto Caboverdeano do Livro, 1983, pp. 119-123.

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