5- Exposição Permanente “Matéria da Fala; Tampas de Panela com Provérbios”

TAMPAS DE PANELAS DE CABINDA

cabindaApresentação

Os elementos culturais designados por mabaya ma nzungu (singular libaya li nzungu) – o que, à letra, significa tábuas de panela – são discos em madeira destinados a cobrir as panelas de terracota, em que os cabindas cozinhavam e se serviam da sua comida.
São artisticamente trabalhadas apresentando, na parte que havia de ficar para fora – além de alguns motivos meramente decorativos – os célebres zinônguno (singular nônguno) designação local dos símbolos e figurações que materializam os nongo (zi), provérbios na sua forma oral.
Há pois que distinguir: zinongo são os provérbios em si, na sua expressão oral, e zinônguno as suas materializações plásticas.
Cada motivo plástico é um ideograma pelo qual se não transmite apenas um sentimento, um estado de alma, mas um conceito concreto da respetiva cultura, traduzido por um dos seus provérbios.
São muito frequentes os motivos antropomórficos e zoomórficos mas isso não parece autorizar-nos a afirmar serem os preferidos nas tampas de panela de Cabinda. São também largamente abundantes as figuras representativas de casas, de feitiços, de objetos domésticos e pessoais, além das de muitos dos vegetais da região; os temas dos provérbios o exigem, de resto.

Utilização

Parece seguro afirmar-se que as tampas de panela tinham, de início, a finalidade de defender a comida da poeira, dos insetos e até dos animais domésticos, durante a confeção e transporte dos alimentos. Depois, segundo um hábito muito comum, terão começado a ser decoradas, como acontece com a maior parte dos objetos de uso caseiro ou pessoal. Tenha ou não sido assim, o certo é que a prática de utilizar as tampas como mensagens, começou a verificar-se.
Antes do casamento, se houvesse qualquer advertência a fazer à filha em relação às suas inclinações amorosas, os pais faziam-no através de tampas com mensagens adequadas, colocadas a cobrir a panela em que lhe era apresentada a sua comida.
O mesmo sucedia relativamente ao rapaz, o que poderia acontecer logo que o seu comportamento relacional, com determinada moça, fosse de molde a pensar que com ela desejava casar. Para o encorajar ou para desaconselhar a união, (quer por ainda não ter as condições económicas desejáveis, quer por haver entre os dois notória desigualdade de nível social, quer especialmente por serem julgadas insuficientes as qualidades da noiva): uma tampa com mensagem adequada era colocada – por decisão da mãe, do pai ou de ambos – na panela que lhe era destinada.
Nas festas do casamento, cada uma das famílias dos noivos, cobriria as panelas em que levava iguarias para as bodas, com tampas dando conselhos ou fazendo advertências quanto ao modo como queria que o futuro cônjuge, seu parente, fosse tratado.
Depois do casamento e quando, nas relações entre os cônjuges viessem a surgir problemas que o justificassem, as mensagens dos familiares seguiriam, frequentemente, o mesmo processo.
Onde, porém, estas mensagens tinham uso mais intenso, era no seio do casal, nas relações diretas homem/mulher, como forma eleita de comunicar em assuntos que contraindicassem o diálogo verbal ou este fosse julgado menos prudente.

Caracterização material e formal

As tampas eram confecionadas em madeira, escolhida com dois objetivos principais – uma manufatura fácil e uma boa adaptação à função.
A madeira que melhor satisfazia estes requisitos, e por isso a mais utilizada – de cor branco-amarelada, muito leve, de textura muito fina, pouco atreita a rachaduras e com notável resistência ao choque em razão da sua grande porosidade – era a msanya.
Outras espécies, como a kámbala e a munyumbu, eram também usadas, mas com menos frequência.
As tampas são mais ou menos planas, de forma circular (ou pretendendo sê-lo) e lisas na parte inferior. Na parte superior, são decoradas, apresentando, em regra na zona central, um motivo esculpido, bem saliente para servir de pega, às vezes único, mas, com muita frequência, acompanhado de outros motivos em alto ou baixo-relevo, ou mesmo em gravura (embora raramente).
Além destes motivos, representando provérbios ou situações que os geram (e a que chamamos motivos ideográfico-decorativos), apresentam também, quase sempre, alguns elementos meramente decorativos, quase exclusivamente constituídos pelas respetivas cercaduras, em regra gravadas.
A quase totalidade das tampas tem uma coloração muito escura, negra mesmo, apesar de clara, como é, a madeira de que são feitas. Essa tonalidade derivará do facto de serem conservadas na cozinha, em regra na cyanga, uma grade de bordão suspensa do teto e que, por cima da lareira, serve de fumeiro e de depósito de pequenos utensílios domésticos e de comidas.

Manufactura

As tampas são feitas num só bloco de madeira, trabalhado em verde, por meio de ferramentas tradicionais, a faca e a enxó. Ambas as ferramentas são bem afiadas, em pedras apropriadas, sendo frequente que cada escultor trabalhe com duas ou três facas e, modernamente, disponha mesmo de um ou mais canivetes. Ultimamente estavam sendo utilizadas algumas ferramentas europeias, como pequenos formões, goivas e grosas.
Tomada que tivesse sido a decisão quanto aos provérbios a figurar, passava-se ao trabalho de desbaste, partindo da base superior do disco, até que a tampa (propriamente dita) ficasse com a espessura pretendida, e iam-se deixando salientes tantas massas quantas as figuras a esculpir ou, eventualmente, os espaços para as que se pretendesse gravar.
Depois, completava-se o trabalho com os elementos meramente decorativos, quase reduzidos à gravação de cercaduras, aliás raramente dispensadas, passando-se em seguida ao acabamento em que eram usadas folhas vegetais abrasivas e, ultimamente, lixa adquirida no comércio europeu local.

Exemplo de interpretação

ThumbnailDownloader.axdMotivos meramente decorativos: Cercadura simples, linha gravada junto ao bordo.

Motivos ideográfico-decorativos: Figuração constituída por um pato das lagoas e uma faca à sua frente.

Provérbio materializado: Ngwíngili va mongo mazi… Podi bonga beli-kò. O pato das lagoas em cima da água… Não pode apanhar a faca (que é de terra); Sentido: cada um deve procurar casar no seu meio social.

Contexto da situação: A circunstância de a ave estar como quando se mantém sobre a água (asas abertas e patas para trás) voltada precisamente para a faca sugere a situação: Um rapaz pretende moça de nível social mais elevado que o seu e a família adverte-o das dificuldades a que os casamentos desiguais costumam dar lugar.

Teor da mensagem:  Não deves pretender unir-te a moça que não seja do teu nível social. Os casamentos desiguais não perduram.

Outra situação possível: Como a faca com cabo simboliza a mulher casada, uma situação possível  seria a de um rapaz ou um homem estar a envolver-se com mulher casada. O  provérbio poderia até ser ligeiramente alterado:
Ngwíngili va mongo mazi…        O pato das lagoas em cima da água.

Podi bonga mbele ikwama-kò     Não pode apanhar a faca encabada

O teor da mensagem seria, neste caso, algo diferente: Se te  envolveste com mulher casada, conta com o inerente à situação que  criaste sofrerás as consequências.

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