7- Exposição Permanente “Animais como Gente, Máscaras e Marionetas do Mali”

MÁSCARAS E MARIONETAS DO MALI

maliApresentação

A região de Ségou, no centro sul do Mali, é palco de uma tradição viva de máscaras e marionetas, que tem a sua origem na era pré-colonial. Estas atuações são organizadas sob os auspícios de associações locais de jovens das aldeias, e são definidas pela comunidade como nyènajè, entretenimento, e tulon, peça. A dança de máscaras é atual, aberta à invenção e mudança. Ao gerar as suas próprias performances, as trupes locais não só remetem para a longa história do teatro, como procuram ativamente a criação de novas personagens que correspondam a preocupações e temas contemporâneos.
É esta troca dinâmica entre tradição e inovação que dá ao teatro o seu carácter atual e permite que a dança de máscaras continue a ser um importante e popular contexto artístico de produção de conhecimento e significado para as comunidades do Mali.
O teatro das máscaras envolve a participação activa de três grupos principais: ferreiros, homens jovens e mulheres. Os ferreiros são os escultores profissionais que fornecem as máscaras esculpidas em madeira e as marionetas de varas aos teatros locais.
Enquanto os ferreiros esculpem as marionetas e as máscaras, os rapazes das associações de jovens são os donos das danças, os promotores activos do teatro e ainda os músicos. As mulheres, as cantoras do evento, são igualmente importantes porque dão voz às máscaras e marionetas.
As máscaras e marionetas do Mali do Museu Nacional de Etnologia resultaram de uma doação feita em 2004 por Francisco Capelo de 50 destes objetos, aos quais se juntaram mais dois, doados por Sónia e Albert Loeb, os coletores da totalidade da coleção junto das comunidades do Mali e autores da documentação fílmica que a acompanha. Aguns objetos recolhidos na década de 60 por Victor Bandeira complementam esta doação através de alguns objetos de uso ritual que ilustram a incorporação mais recente neste teatro de máscaras de contextos tradicionais mais antigos.

Calendário do teatro

Nas comunidades rurais, a exibição do teatro ainda segue de muito perto os ciclos agrícola e piscícola da região. As performances tomam lugar, habitualmente, nos períodos de transição entre a estação das chuvas e a estação seca. Algumas comunidades fazem a sua representação no princípio desta última, em finais de Outubro ou inícios de Novembro, um período que marca o começo da colheita e o pico dos meses de pesca. Outras fazem-na no fim de Maio ou início de Junho, no princípio da estação das chuvas, época que assinala o começo das plantações, a subida dos rios e de um novo ciclo de pesca. Durante os festivais de Outubro, as danças são executadas, geralmente, apenas durante um dia, desde o meio da tarde até madrugada. Contudo, os mais velhos podem consentir que se represente mais uma ou duas vezes durante o mês, se houver interesse por parte dos jovens. Os festivais de fim de Maio duram normalmente três dias consecutivos, e as representações são apresentadas na tarde e noite de cada um desses dias. Em algumas comunidades, a mudança dos festivais para Maio e Junho surgiu durante o séc. XX e parece ser uma amálgama de várias tradições performativas diferentes.
As performances acontecem habitualmente na área aberta da aldeia. Em algumas comunidades ocorrem em frente à casa do chefe; noutras, junto da casa de reuniões da associação de jovens. As atividades começam várias horas antes do espectáculo em si. As crianças pequenas reúnem-se mais cedo e começam a tocar tambores, a dançar e a imitar o movimento das máscaras. As associações de jovens avisam a aldeia de que o evento vai começar tocando trombetas feitas de chifres de animais, e os adultos, vestidos com adornos de festa, começam a deslocar-se lentamente para a área pública.

Performance e etnicidade

Experiência comum No teatro de marionetas, a interpretação de diferentes histórias contribui para a construção da identidade étnica. Entre os quatro grupos étnicos, certos pontos da história do teatro convergem, incluindo a sua estrutura, organização e calendário dentro do ciclo anual, contribuindo para o sentido da tradição da dança de máscaras como parte de uma experiência histórica e regional comum. Localmente, contudo, a identidade étnica específica de uma trupe é uma das mensagens comunicadas na performance.

Especificidades de cada grupo As pessoas reconhecem e discutem abertamente a influência mútua entre os diferentes grupos, mas é o estilo performativo de uma trupe que molda o seu investimento numa identidade étnica específica. Por exemplo, as pessoas falam regularmente de uma dança Bamana ou de um ritmo Boso. Os artistas Bamana descrevem as suas canções mais rápidas, vivazes e sucintas em relação às dos Boso e dos Sòmonò. A ênfase colocada nas frases e tempo do seu estilo de canção tem uma correlação lógica com a discussão entre os diferentes ritmos de tambor que são tocados por cada grupo e o estilo da sua dança. Pescadores e agricultores também usam tipos diferentes de tambores para a atuação.

Pescadores e agricultores também se identificam com diferentes conjuntos de personagens animais. As performances dos pescadores representam grandes animais do rio, como o hipopótamo, o peixe-boi e o crocodilo; já os seus vizinhos agricultores escolhem o leão, o búfalo da floresta e o elefante.

Um ato muito antigo e específico, que distingue pescadores e agricultores, é o de trazer as máscaras e marionetas para dentro da aldeia em barcos, na manhã do evento.

Máscaras de outros rituais Em algumas comunidades Bamana, as trupes incorporaram nas suas danças máscaras das sociedades de iniciação dos homens como a Ndomo, Korè e Ciwara.  A sua performance no teatro de jovens serve para preservar a memória do importante papel que estas associações desempenhavam na vida da aldeia, e é uma forma dos jovens celebrarem a etnia Bamana.

Animais da floresta

As danças de máscaras dos animais da floresta são metáforas pormenorizadas e complexas, pelas quais se pode explorar a natureza do conhecimento e do poder, a relação entre o indivíduo e o grupo, e os meios através dos quais um jovem pode ultrapassar os feitos dos seus anciãos e ganhar o seu nome ou reputação.
Tanto nas comunidades piscatórias como nas agrícolas, a floresta é definida como sendo domínio dos homens, e a interpretação das personagens animais são inspiradas em crenças e valores associados à caça e à definição de caçadores como homens de ação e heróis da sociedade.

Numa interpretação mais alargada, o búfalo da floresta pode representar o peso da tradição investido nos anciãos, e o caçador, na sua bravura e vitalidade, os jovens e a sua capacidade de superar os feitos dos seus antepassados.

A hiena é uma das personagens mais antigas e associada a múltiplas interpretações. Algumas representações enfatizam a sua enorme inteligência e poder, outras o seu papel na medicina tradicional e ainda pode ser descrita como uma personagem grosseira e desastrada, desafiando todas as normas de comportamento apropriado.

Os antílopes são personagens populares que têm um longo historial no teatro. As pessoas dizem que os génios da floresta dão ao Dajè a sua grande beleza e um manto protector. De acordo com os contos dos caçadores, com essa extraordinária beleza, o antílope cavalo consegue paralisar um caçador que terá de possuir energia suficiente para concretizar a morte do animal.

Homens e Mulheres

Sob a guisa do entretenimento e da diversão, as danças de máscaras oferecem aos participantes a oportunidade de imaginar e filosofar sobre o universo moral, a natureza das suas relações sociais e as ambiguidades e incertezas que experienciam nas suas vidas diárias.
Marionetas de mulheres a fiar algodão, a joeirar os cereais, a recolher e fazer a manteiga das nozes de karité, celebram a produção feminina e as suas contribuições para a vida económica da comunidade. Marionetas de chefes e guerreiros, caçadores, agricultores e pescadores, enaltecem as atividades produtivas masculinas, reafirmando o direito dos homens à propriedade sobre a terra e rios, e à sua autoridade na comunidade e sobre as mulheres no agregado familiar. Estes padrões estão tão enraizados na tradição e tornaram-se tão naturais através dos tempos que, no teatro, tanto homens como mulheres falam sobre eles a uma voz.

Tipos de Marionetas

BF855D_Custom1) A maioria dos bonecos de madeira são grandes marionetas de varas que representam a cabeça de vários animais. Estas cabeças de marioneta são chamadas sogokun, cabeças de animais, e são manobradas por longas varas de madeira, fixadas à base da escultura. O bonecreiro/ dançarino está escondido por debaixo de uma armadura de madeira, feita de três ramos entrançados e depois coberta com uma capa de erva ou de tecido. Esta construção representa o corpo do animal e o bonecreiro manobra a cabeça de madeira a partir de baixo. A construção por inteiro, que inclui a cabeça e o corpo da marioneta, é conhecida como sogoba, o grande animal.

BF899D_Custom2) Uma segunda categoria de marionetas de madeira consiste numa grande cabeça e torso, esculpidos, que emerge de uma armadura de madeira, vestida, e que representa o corpo do personagem. As marionetas deste tipo são quase sempre representações de personagens humanas. Os braços da personagem são, regra geral, esculpidos separadamente e o dançarino/ bonecreiro, que está escondido dentro do corpo trajado, manipula os braços para animar a figura. Este segundo tipo é mais raro no inventário das trupes, ao contrário das cabeças de animais que são muito frequentes.

BF877D_Custom3) Uma categoria de marionetas corresponde às que são manejadas por pequenas varas e varas com fios. Estas marionetas ou são unidas à cabeça do animal, ou são independentes, brotando das costas do animal. Os bonecreiros, escondidos dentro da máscara, operam estas pequenas marionetas com um sistema de roldanas. Os bonecos mais pequenos são conhecidos como sogodenw (filhos do animal) ou maani (figuras populares), e representam vários animais, seres humanos e espíritos do bosque. Animais selvagens e domesticados, pessoas, espíritos do bosque, objectos inanimados (como automóveis e aviões) e personagens tipo que falam da condição humana, são potenciais sujeitos de inclusão nos dramas.

BF889D_Custom 4) Há uma correlação regional entre algumas categorias de personagens e tipos de máscaras e marionetas que são escolhidos para as representações. No caso das personagens animais, por exemplo, as trupes usam, geralmente, máscaras faciais ou capacetes para representar babuínos, macacos, leões e outros felinos selvagens.

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